Eu vou começar esse post chutando logo o pau da barraca: hoje em dia, fazer uma configuração de home theater na unha é tão fácil e óbvio quanto chegar ao topo do Everest. É algo que pode facilmente separar homens de meninos, ou nerds wannabes de um nivel 5. E olha, ainda não é o suficiente: adicione uma boa e generosa dose de saco e paciência… e pensar que anos atrás o complicado era manipular dois tipos de conectores: RCA e P2.
Inclua na definição de “fazer uma configuração de home theater” qualquer setup que lhe permita ter um PC / Notebook, DVD, blueray, som, telas LCD / LED / Plasma e etc, conectados entre si e funcionando como algo *quase* integrado.
Meu Pai foi curtir a vida durante 2 semanas na Europa. Em casa sozinho, resolvi fazer tudo que o incomodaria diante de sua presença. Aquele upgrade de memória do PC dele há tempos prometido, limpeza dos PCs, arrumação da casa, etc.
Pensando nisso, conclui: por que nao aproveitar o tempo para por em prática o velho plano de adaptar aquela TV LCD de 32”, que quase nao é ligada, como terceiro monitor do meu desktop ?
O desktop atual é uma máquina montada, baseada numa placa Asus P5E3 Deluxe Wifi, com 8 GB de RAM e um Intel Core 2 Quad Q9550, rodando com uns 20% de overclock.
A placa de video é uma Saphire / ATI Radeon 5870 com 2 GB DDR5. Ela vem nativamente com 2 saídas DVI, 1 HDMI e 1 DisplayPort.
As duas saídas DVI estavam ocupadas por dois monitores LCD LG W2243 (21,5” pol, FullHD) e, desde a montagem deste rig, que tinha a intenção de colocar uma tela flatscreen (uma TV) de 32” associada (para ver filmes, séries, etc.).
Entretanto, me faltavam alguns recursos como homem/hora e paciência para iniciar o projeto. Com a viagem, arrumei o tempo (em outras palavras, dormi menos).
A primeira dificuldade foi arrumar um suporte para a TV, que não ficaria em cima de uma mesa ou colada na parece mas em cima dos monitores atuais. Ou fazia isso através de um suporte fixo no teto ou no chão.![]()
Após procurar muito, achei um suporte móvel para a TV, permitindo-me colocá-la atrás (e acima) dos monitores atuais. Ela já funcionava na sala, eventualmente conectada ao notebook via HDMI, sem problemas.
Veja o suporte ao lado.
Montei o circo, peguei o cabo HDMI, pluguei diretamente na placa de vídeo do PC e… sem imagem.
Cabo com mau contato ? Sim. O conector HDMI é fresco de nascença. Cabo HDMI com 5 metros ? Fuja. Quanto maior, maior a probabilidade do sinal chegar fraco na ponta e nada aparecer na tela.
Primeiro prejuízo: trocar o cabo HDMI por um menor.
Mexi pra lá, pra cá, ressetei a BIOS do PC e, finalmente, a tela acendeu. Misteriosamente, o PC colocou justamente a TV como tela primária.
Ao entrar no Windows, o primeiro monitor LCD original voltou a sê-lo. Entretanto, a TV apagou. Dentro das definições de resolução do Windows 7, lá estava a TV desativada, mas ao clicar na opção de extender o desktop e tentar aplicar, aparecia uma mensagem de erro atestando que a configuração não poderia ser salva.
Depois de futucar muito no Google, descobri que, infelizmente, a segunda porta DVI divide o sinal com a HDMI e tem precedência sobre ela. A única forma de ter 3 ou mais telas conectadas numa Radeon que suporte este tipo de configuração é através da DisplayPort.
Segundo prejuízo: cabo HDMI de 3 metros.
Para minha sorte, achei o adaptador facilmente na InfoHouse. O problema é que, assim como os dois monitores LG W2243, a entrada para PC da TV é DB15 analógico, mas o adaptador DisplayPort é DVI-D do lado do monitor.
Pensei: comprar um adaptador DVI –> DB15 analógico, um cabo de monitor com 3 metros e pronto.
Logo quando tentei encaixar o adaptador DVI –> DB15 no DisplayPort –> DVI, percebi que este último possui 4 pinos a menos. Não encaixa!
Achei inicialmente que estava com um adaptador DisplayPort defeituoso. Mas ao procurar imagens de outros adaptadores na Internet, percebi que *todos eles* tem estes quatro pinos a menos.
Claro que peguei um alicate e arranquei os pinos “excedentes”, do lado DVI do adaptador DVI –> DB15 analógico.
Veja na imagem a diferença entre os conectores. Da esquerda pra direita: conector DVI do adaptador para DB15; conector DVI o cabo DVI –> HDMI; conector DVI do adaptador Displayport.
É óbvio, também, que essa gambiarra não poderia funcionar.
Terceiro e quarto prejuízos: adaptador DVI –> DB15 e cabo e monitor analógico.
Foi quando comecei a fazer um exercício de lógica. Até onde sei, o padrão DVI é digital. O padrão legado para monitores que usam portas DB15 é analógico. Então, como pode um monitor com conector DB15 e sinalização analógica, funcionar numa placa de vídeo com conector DVI e sinalização digital simplesmente através de um adaptador passivo ?
Simples. Me parece que, para manter compatibilidade entre placas de vídeo novas e monitores antigos, as placas de vídeo “mudam” a sua sinalização / saída para analógico quando você conecta um monitor analógico via conversor DVI –> DB15. É por isso que o conector DVI – DB15, do lado DVI, é diferente do conector DVI do adaptador DisplayPort.
Este último, por sinal, deve ser projetado apenas para transmitir o sinal digitalmente.
A situação ficou mais clara quando eu vi à venda, em uma loja local (Controle Remoto), um cabo de 3 metros com um conector HDMI numa ponta e um DVI na outra. Neste caso, o conector DVI *não* tem os 4 pinos adicionais do conversor DVI –> DB15 analógico, e encaixa perfeitamente no adaptador DisplayPort.
Imagino que seja assim porque o sinal é totalmente digital e essa foi a forma (os 4 pinos de diferença) que os projetistas iniciais usaram para diferenciar uma coisa da outra.
Com todos os elementos em mãos (finalmente), o setup foi plug-and-play: Placa de vídeo –> adaptador DisplayPort / DVI –> cabo DVI / HDMI –> TV.
Ao conectar o cabo no PC, o sistema automagicamente reconheceu a terceira tela e me permitiu extender o desktop.![]()
O resultado foi esse da imagem ao lado.
A que conclusões eu cheguei ? Que existem padrões proprietários, de fato e de feto.
Padrão proprietário é aquele que só é padrão para o fabricante que o criou. Produtos com este padrão só funcionarão com outros produtos do mesmo fabricante.
Padrão de fato é um padrão proprietário evoluído: ele nasceu proprietário mas se tornou tão comum e tão divulgado que o mercado (e outros fabricantes) passaram a adotá-lo.
Por último, o padrão de feto é aquele que nasce de um grupo independente (muitas vezes formados por vários fabricantes de comum acordo e com a intenção de desenvolver o padrão corretamente) e, supostamente, deveria ser o padão de fato, mas raramente é.

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